Anquiloglossia – implicações no sucesso da Amamentação

A maioria dos bebés nasce com capacidade para se alimentarem de uma forma competente e segura, quer seja através da amamentação quer da tetina, podendo haver no entanto, casos de dificuldade na aquisição das competências de alimentação oral. Esta autonomia alimentar bem-sucedida depende do correto desenvolvimento dos mecanismos de sucção e deglutição, bem como da sua coordenação com a respiração.

Considera-se importante compreender que a língua é uma estrutura dinâmica, envolvida na sucção, na deglutição, na respiração, na oclusão dentária e na fala. No que respeita à sucção do bebé, que é aquela que pretendemos discutir, a língua tem dois componentes e duas ações no mecanismo da sucção. A fração anterior da língua é essencial para uma pega eficiente, mantendo-se em aposição com a base do mamilo e acompanhando os movimentos da mandíbula do bebé nos ciclos de sucção e deglutição. Por outro lado, a fração posterior da língua, afigurar-se como a principal responsável pela extração de leite (Fernandes, 2020).

Posto isto, facilmente se compreende a importância da língua numa pega eficiente, que é essencial para uma amamentação bem-sucedida.

Definição

Anquiloglossia é uma anomalia congénita popularmente conhecida como “freio da língua curto”. Ela ocorre pela persistência do freio lingual, uma pequena membrana de tecido que conecta a superfície ventral da língua ao pavimento bucal e que, normalmente, passa por um processo de redução (torna-se mais fina à medida que a musculatura da língua se desenvolve) durante o desenvolvimento uterino. Por motivos que ainda não estão bem esclarecidos, a regressão dessa membrana não acontece, ou acontecendo, é em menor intensidade do que deveria, e por isso o freio permanece e pode apresentar diversas formas.

Estima-se que a prevalência da anquiloglossia se situe entre os 0,1% e 12,11% (Fernandes, 2020).

Implicações na amamentação

Atualmente é do nosso conhecimento que a anquiloglossia, ao restringir a mobilidade da língua, é uma causa relevante de insucesso na amamentação, pelo facto de levar a alterações na capacidade de sucção, dor e trauma mamilar, pega inadequada, má progressão ponderal, mamadas demoradas e pouco eficazes, e desmame precoce, pelo que o seu diagnóstico deverá ser feito o mais precocemente possível. A prevalência de dificuldades na amamentação em recém-nascidos com anquiloglossia está estimada entre 25% e 80%. Julga-se importante salientar que a drenagem pouco eficaz de leite materno, além de se exprimir numa má progressão ponderal para o bebé, está relacionada a irritabilidade e fadiga do bebé a mamar, a necessidade de mamar mais vezes por dia, ao risco de possível desenvolvimento de mastite por parte da mãe e até a diminuição da produção de leite materno (Fernandes, 2020).

Importa ainda ressalvar que estes bebés com anquiloglossia restritiva, apesar de poderem apresentar dificuldades na amamentação, de um modo geral são capazes de alimentar-se por tetina, explicado pelo facto do mecanismo envolvido na sucção por tetina não ser igual aquele envolvido na amamentação.

Diagnóstico

O diagnóstico é realizado através de um exame objetivo, sendo possível visualizar as alterações do freio lingual – que pode ser curto, rígido ou estar aderente a diversos pontos da língua e do pavimento bucal. Os bebés com anquiloglossia podem também apresentar diminuição da mobilidade da língua, restrição da protusão e deformidade em “V” ou em “coração”.

Tratamento

Apesar de alguns autores apontarem para uma abordagem conservadora, recorrendo a orientação e apoio na amamentação, de um modo geral, pensa-se que, para os recém-nascidos com anquiloglossia sintomática e que manifestem dificuldades na amamentação, o melhor tratamento seja a abordagem cirúrgica – a frenotomia.

 

A frenotomia é uma técnica cirúrgica simples, segura e eficaz que consiste na realização de uma incisão no freio lingual, que pode ser realizada em ambulatório e que decorre sem quaisquer complicações na maioria dos casos, tendo resultados confirmados na melhoria da mobilidade lingual e, concludentemente, no sucesso da amamentação (Xavier, 2014).

Esta abordagem está também recomendada por inúmeras entidades, como por exemplo a The Unicef UK Baby Friendly Initiative e a Academia Americana de Pediatria.

Patrícia Ferreira

Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica

ACES Cávado II – Gerês/Cabreira

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS

Fernandes, C. (2020). O Mecanismo de Sucção no Recém-Nascido e o caso particular das suas alterações na Anquiloglossia. [Master´s thesis, Universidade de Lisboa].

Carvalho, S. (2014). Hábitos de Sucção Não Nutritivos em Pacientes Pediátricos. [Master´s thesis, Universidade de Lisboa].

Coutinho, M. (2021). Desenvolvimento motor e alimentação do bebé prematuro e de termo no primeiro trimestre de vida. [Master´s thesis, Escola Superior de Saúde/Politécnico do Porto]

Xavier, M. (2014). Anquiloglossia em pacientes pediátricos. [Master´s thesis, Universidade de Lisboa].