UTENTES E FAMILIARES COM DOENÇA ONCOLÓGICA

A vivência da doença oncológica, sendo considerada como um facto individual, familiar, social e com grande carga emocional, traz alterações para a vida não só do doente, mas também da sua família. Ao analisar as alterações nas atividades de vida do doente e família, é necessário ter em conta as suas reações à doença, que são condicionadas pelas características individuais de cada um, experiências prévias, crenças e valores e contexto sociocultural em que doente/família se inserem.

A representação social da doença oncológica, influencia a atuação do enfermeiro, as relações que se estabelecem com os doentes oncológicos requerem maior proximidade, envolvimento e intimidade (Peteet e col., 1992, citados por Pereira e Lopes, 2002:16). A prestação de cuidados ao doente oncológico envolve um “encargo” pessoal acrescido. Os enfermeiros enfrentam situações emocionais desgastantes. A proximidade, envolvimento e intimidade necessárias ao estabelecimento de uma relação com o doente e família, resultam numa grande satisfação pessoal para o profissional.

O enfermeiro é o elemento da equipa de saúde que mantêm uma relação mais íntima com o doente e a família, não só por permanecer nos serviços durante um período mais longo, mas também porque presta cuidados mais diretos. Possui uma posição privilegiada na medida em que é a pessoa que, regra geral, conhece melhor o doente como pessoa, o seu contexto familiar, económico e sociocultural, tendo uma maior possibilidade de identificação das necessidades específicas e da resposta mais adequada.

Pacheco (2002:65) refere que os cuidados a prestar ao doente em fase terminal, consistem essencialmente no seu acompanhamento e conforto ao longo de todo o período de aproximação eminente da morte e pretendem sobretudo aliviá-lo da dor e sofrimento possibilitando-lhe, assim, o máximo de bem-estar durante a vida que lhe resta viver.

Mesmo compreendendo que os cuidados devem ser mantidos até terminar a vida do doente, muitos enfermeiros têm dificuldade em lidar de perto com a morte e sobretudo, em comunicar com o doente e com a família. O enfermeiro tem de considerar a morte como algo que representa o fim, e se, tem medo da mesma, irá sentir dificuldade em lidar com os doentes em fim de vida e em falar da morte com os mesmos. Segundo Barros (1998:236), a morte é sem dúvida o acontecimento mais desgastante no dia a dia da vida hospitalar.

No entanto, se pretendemos ajudar de forma global o doente em situação terminal, não podemos esquecer um elemento vital dentro desta globalidade: a família. A família é o elemento mais próximo do doente para o acompanhar no seu último momento de existência. Esta ajuda será facilitada se no processo de morrer, se conhecer e se identificar quais são as preocupações, os medos, os temores e a dinâmica psicossocial da família com o doente.

Almeida (1997:37) refere que … a enfermagem centrada na família é aquela, na qual os cuidados são dirigidos ao doente dentro do contexto familiar….

Mais do que nunca a família é solicitada a prestar cuidados aos seus membros no domicílio. Perante esta situação as famílias apresentam um conjunto de necessidades podendo os enfermeiros desempenhar um papel fundamental na satisfação das mesmas.

Curry (1995) refere que, de acordo com a maioria dos investigadores, o enfermeiro é     o candidato mais provável para satisfazer as necessidades da família, principalmente as necessidades de apoio. As famílias devem sentir que os enfermeiros são sensíveis e estão dispostos a ajudar.

Pacheco (2002:139) refere que, o enfermeiro poderá desenvolver atitudes no sentido     de orientar as famílias, tais como:

Observar e escutar quando um dos membros solicita a sua atenção;

 

Permitir que expressem livremente os seus sentimentos; aceitar as respostas individuais;

Explicar que é normal experimentarem sentimentos e reações caóticas, como por   exemplo “desejar a morte do familiar”.

Proporcionar comodidade e manter a família informada;

 

Reforçar pontos fortes da família, como por exemplo a capacidade de apoio mútuo;

Envolver os familiares nos cuidados (o facto de o familiar poder aliviar, ajudar, fazer alguma coisa pelo seu doente, ajuda-o a passar de um exportador impotente a cuidador).

Também Lewandowski (1988) citado por Martins (2000:22) diz que, os enfermeiros devem assistir os membros da família e consciencializar-se das suas necessidades. Uma abordagem holística do cuidar, direccionando as intervenções a toda a família, deve ser utilizada.

Estes profissionais devem perceber de que forma a família vive com a doença, qual a sua compreensão e perceção da mesma, quais os seus medos e os seus receios, efetuando uma avaliação dos recursos e disponibilidades da família, imergindo desta avaliação um conjunto de pontos fortes e fracos, que vão contribuir para o estabelecimento de uma intervenção eficaz por parte da equipa de enfermagem, de forma a ajudar a família, a ajudar-se.

 

Nuno Pimenta

Enfermeiro Especialista em Enfermagem Médico‐Cirúrgica na área de Enfermagem à Pessoa em Situação Paliativa

UCSP Terras de Bouro

BIBLIOGRAFIA

ALMEIDA, Mª do Rosário Ferreira de; FERNANDES, Mª Manuela Antunes; RUA, TERESA Susana Rodrigues Ventura – Cuidados paliativos ao doente terminal Revista Informar. Ano VIII, nº28 (Maio/Agosto). 19-21;

BARROS, Maria Isabel – Cuidar de um doente moribundo é antes de mais assistir um doente em vida – Revista Servir, 1998:36; 5; 231-240;

CURRY, Stephen – Identificação das necessidades e das dificuldades das famílias do doente na UCI Revista Nursing. 1996; 26 – 30;

MARTINS, Catarina Rute Esteves Afonso – As necessidades dos familiares dos doentes oncológicos Revista Enfermagem Oncológica, 2000: 15 ;19 – 24;

PACHECO, Susana – Cuidar a pessoa em fase terminal: perspectiva ética – Loures: Lusociência – Edições Técnicas e Científicas, 152 p.. ISBN 972-8383-30-4;

PEREIRA, Graça; LOPES Cristiana – O doente oncológico e a sua família – 1ª edição, Lisboa, Climepsi Editores, 2002;