O excessivo “tempo de ecrã” – quais as consequências no desenvolvimento infantil?

Nas duas últimas décadas, houve um aumento significativo na disponibilidade de dispositivos de ecrã, levando a um aumento da sua utilização por crianças e adolescentes. Os ecrãs de computador, telemóvel, tablet ou televisão fazem parte do seu dia‑a‑dia, pois representam uma forma fácil de acesso a informação, entretenimento, comunicação e marketing. Com esta nova realidade surgiu o termo “tempo de ecrã” que representa o tempo que é passado em exposição a estes dispositivos (Rafael et al., 2020).

Um estudo realizado em Portugal, por Póvoas et al. (2013), que procurou identificar os hábitos de brincadeira de 210 crianças com idades entre os 11 meses e 6 anos, afirma que 54,3% das crianças, tinham um “tempo de ecrã” diário superior a duas horas. Relativamente a crianças mais velhas, estudos sobre utilização de internet revelaram que, até aos 10 anos de idade, a maioria das crianças utilizava‑a cerca de duas a cinco horas por dia e, entre os 9 e 17 anos, a média de utilização era de mais de três horas por dia (Rafael et al., 2013).

Embora o uso destes dispositivos possa trazer benefícios, por permitir novas formas de aprendizagem com recurso a programas interativos de qualidade, e o acesso rápido e fácil a informação, observa-se já uma preocupação crescente quanto aos efeitos negativos do tempo de exposição a estes dispositivos no desenvolvimento infantil.

A alteração do sono, é um dos principais problemas associados ao excessivo tempo de ecrã. A qualidade e o número de horas de sono são afetados por vários fatores, nomeadamente: o tempo de uso dos dispositivos, o uso imediatamente antes de adormecer, e ainda o tipo e conteúdo da média digital a que se assiste (Lissak, 2018).

A obesidade tem sido também amplamente investigada. Considera-se que a redução do tempo de sono, o aumento do sedentarismo e consequente redução da atividade física, a ingestão alimentar e a exposição a publicidade alimentar inadequada, contribuem para esta associação (Robinson et al., 2017). Existe evidência que o aumento da tensão arterial na infância está diretamente relacionado com o comportamento sedentário e consequente inatividade física associada à exposição ao ecrã superior a 2 horas (Lissak, 2018).

As alterações na visão, particularmente a visão turva, olhos cansados e secos, bem como o desenvolvimento de miopia estão associados ao excessivo uso de dispositivos eletrónicos (Lissak, 2018).

Os efeitos ortopédicos também têm sido relatados, nomeadamente alterações na postura que geram deformações músculo-esqueléticas, como resultado do movimento intenso e repetitivo do punho e braço e inclinação da cabeça associados aos vídeo – jogos.  A diminuição da densidade óssea também já se associa ao elevado tempo de ecrã (Lissak, 2018).

Outra área de crescente interesse é a relação entre o “tempo de ecrã” e a saúde mental. Sintomas depressivos, ansiedade, problemas de comportamento, perturbação de hiperatividade e défice de atenção e baixa auto‑estima são algumas das condições que têm sido associadas (Rafael et al., 2020). Verificam-se também alterações neurológicas, psicológicas e sociais, nomeadamente, comportamento aditivo, comportamentos de violência e dificuldades de interação social (Lissak, 2018).

A Associação Americana de Pediatria recomenda que crianças com idade inferior a 18 meses não utilizem dispositivos eletrónicos e que o tempo de exposição ao ecrã não seja superior a 1 hora por dia nas crianças dos 2 aos 5 anos.

Uma vez que o uso excessivo e viciante da média digital parece comprometer o normal desenvolvimento biopsicossocial das crianças e jovens, o Enfermeiro Especialista de Saúde Infantil e Pediátrica, deve abordar esta temática com as famílias cada vez mais cedo, informando-as sobre as consequências e capacitando-as ao uso de estratégias alternativas de brincadeira. Sensibilizar toda a comunidade para esta problemática, é essencial para promover a adoção de comportamentos potenciadores de saúde.

 

Marta Vilaça

Estudante do curso de Pós-Licenciatura de Especialização em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica da Universidade do Minho

Patrícia Ferreira

Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica

ACES Cávado II – Gerês/Cabreira

 

Referências Bibliográficas

American Academy of Pediatrics. (2016). Children and Adolescents and Digital Media. Pediatrics, 138(5). https://publications.aap.org/pediatrics/article/138/5/e20162593/60349/Children-and-Adolescents-and-Digital-Media

Lissak, G. (2018). Adverse physiological and psychological effects of screen time on children and adolescentes: Literature review and case study. Enviromental Research. 164. 149-157. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29499467/

Póvoas, M., Castro, T., Mateus, A., Costa, M., Escária, A.,& Miranda, C. (2013). O brincar da criança em idade pré-escolar. Acta Pediátrica Portuguesa,44(3), 108-112. https://pjp.spp.pt/article/view/1166

Rafael, A., Gouveia, M., Fernades, A., Costa, A., Melo, S., Borges, S., Jorge, J. & Mendes, G. (2020). Exposição a “Tempo de Ecrã” e Psicopatologia na Infância. Revista Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, 6(2), 54-66. https://www.revistapsiquiatria.pt/index.php/sppsm/article/view/161