Cuidar em fim de vida, uma breve abordagem

Cuidar da pessoa em fim de vida é complexo e difícil para os profissionais de saúde, nomeadamente para os enfermeiros que se deparam com a incurabilidade da doença e com prescrições que visam combater a morte, mesmo que seja reconhecida a irreversibilidade da situação clínica. Salienta Hennezel (2001), que quando o tratamento é considerado inútil os princípios éticos de beneficência e de não maleficência estão postos em causa. A sua aplicação corresponde à obstinação terapêutica, sendo censurável, na medida em que o plano terapêutico deve ser em função de obtenção de ganhos e não de perdas.

Assegurar um fim de vida com dignidade no contexto científico e tecnológico da sociedade atual, impulsiona os profissionais de saúde para um cuidar ativo e holístico em que doente e família sejam centros de decisão. Neste sentido, olhar para o fim de vida como uma etapa da vida, em que ainda existe muito a fazer, os cuidados paliativos constituem-se como a solução para um processo de vida condigno

Salienta, António Barbosa, I. G. (2010) que os cuidados paliativos são cuidados ativos e que se focam na totalidade da pessoa, cuja doença não tem benefício com tratamento curativo. O controlo da dor, outros sintomas e problemas psicológicos, sociais e espirituais é de extrema importância. Na opinião de Morais (2004), uma medicina paliativa disponível para todos é a alternativa positiva ao desespero da eutanásia, ou seja, com excelentes cuidados paliativos, os pedidos de eutanásia são quase inexistentes. Assim, parece poder afirmar que os cuidados paliativos serão a alternativa a cuidados considerados geradores de falsas expectativas e prolongamento do sofrimento.

Mas quando se trata em lidar com pessoas que experienciam o fim da vida as questões éticas que envolvem a terminalidade continuam no campo das práticas clínicas a serem discutidas. Estas discussões derivam muitas vezes do conflito entre os valores pessoais da cada profissional e do doente e sua família.

Martins, M. (2010), no seu estudo de natureza exploratória, procurando conhecer a perceção e a intervenção dos enfermeiros diante da prescrição de não reanimação, constatou que a maioria dos enfermeiros está de acordo com a ortotanásia. No entanto verificou que o dilema ético mais vivenciado na prática clínica foi a distanásia.

Pessini (2007) analisou os dilemas na distanásia e indica que os profissionais de saúde, religiosos e teólogos, deveriam refletir sobre o sofrimento inútil a que são submetidos os doentes em processo de morrer.

Oliveira M.L.C. (2001), refere que médicos consideram a morte do doente como uma falha, sentindo-se frustrados e com sentimentos de culpa por não conseguir evitar a morte. Neste sentido o doente experiencia o processo de morrer com sofrimento e sujeito á distanásia. Esta é definida como uma morte vagarosa, decorrente de tratamentos inúteis ou fúteis para manter o doente vivo por meio de medidas invasivas e tecnologicamente complexas.

Outras das dificuldades com que se deparam os enfermeiros são alguns pedidos de doentes que se encontram com intenso sofrimento, não encontrando sentido de viver e pedem que lhe ponham termo á vida.

O tema da eutanásia tem adquirido um singular relevo nas discussões atuais, sendo uma importante questão em debate hoje em dia. O fruto deste debate poderá afetar profundamente as relações familiares, a relação enfermeiro/doente, e os mais elementares princípios éticos e morais. Desta forma, e apesar de os debates sobre a eutanásia terem estado relegados durante algum tempo, atualmente parecem ter retomado a sua importância na sociedade, graças às mais recentes polémicas levantadas pelos pedidos de eutanásia de pessoas vítimas de doenças terminais e levaram a discussão parlamentar. No entanto, a eutanásia está longe de ser uma questão fácil e linear.

Em 2002, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu os cuidados paliativos como “uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida dos doentes – e suas famílias – que enfrentam problemas decorrentes de uma doença incurável e/ou grave e com prognóstico limitado, através da prevenção e alívio do sofrimento, com recurso à identificação precoce e tratamento rigoroso dos problemas não só físicos, como a dor, mas também dos psicossociais e espirituais”.

Desta definição da OMS também adotada entre nós no Programa Nacional de Cuidados Paliativos, torna-se premente ressalvar que: os cuidados paliativos são cuidados ativos, totais e continuados, prestados por uma equipa multidisciplinar aos doentes que já não respondem aos tratamentos curativos. Uma das grandes finalidades é o controlo da dor e de outros sintomas, dos problemas psicológicos, sociais e espirituais. O objetivo dos cuidados paliativos é proporcionar a melhor qualidade de vida possível aos doentes e seus familiares. Ainda segundo a OMS, os cuidados paliativos afirmam a vida e encaram a morte como um processo natural, nunca a antecipam ou atrasam e oferecem um sistema de suporte para ajudar os doentes a viver tão ativamente quanto possível até à morte. Assentam-se em quatro pilares: controlo sintomático, comunicação e trabalho em equipa, apoio/ acompanhamento no processo de luto.

O controlo sintomático é essencial no proporcionar qualidade de vida para isso é fundamental considerar o sintoma como uma doença em si.

A comunicação e o trabalho em equipa é uma ferramenta terapêutica essencial e um instrumento ético que se torna um processo imprescindível para a tomada de decisões centradas na pessoa.

Nuno Pimenta

Enfermeiro Especialista em Enfermagem Médico‐Cirúrgica na área de Enfermagem à Pessoa em Situação Paliativa

UCSP Terras de Bouro