Quedas nos idosos, um fenómeno multifatorial

A queda e o envelhecimento caminham lado a lado, ou seja, quanto mais idade, maior a probabilidade de queda (C.F. Santos et al, 2018; despacho 1400-A/2015). Se por um lado as quedas são entendidas como resultantes da perda de equilíbrio ou incapacidade em recuperá-lo (C.F. despacho 1400-A/2015), o envelhecimento é um Síndrome Geriátrico multifatorial caracterizado pela alteração da funcionalidade, autonomia, mobilidade pelo que o risco da ocorrência de eventos adversos como as quedas aumentam exponencialmente com a idade (CF. Santos et al., 2018; C.F. Lopes et al., 2010)).

Literatura (C.F. Santos et al., 2018; despacho 1400-A/2015; C.F. Vieira et al., 2016) refere como fatores de risco para as quedas a história anterior de queda, idade maior ou igual a 65 anos (C.F. Lopes et al., 2010), polimedicação, alteração no equilíbrio, diminuição da acuidade visual, perda de massa muscular, doença cardiovascular, vertigens, artrose, incontinência urinária, demência entre outros. Acresce o sexo feminino e a institucionalização como fatores adicionais de risco (C.F. Lopes et al., 2010), a par de fatores ambientais relacionados com barreiras no interior e exterior do domicílio (C.F. Lopes et al., 2010). O calçado inadequado, pisos escorregadios e irregulares, degraus altos, objetos no chão, são descritos como fatores extrínsecos associados ao risco de quedas (C.F. Rodrigues et al., 2015; C.F. Vieira et al., 2016).

As quedas por si só estão na origem de uma multiplicidade de problemas que se estendem para além do indivíduo, com impacto na família, comunidade e sociedade em geral, já para não falar do impacto económico-financeiro (C.F. Santos et al., 2018; C.F. Lopes et al., 2010; C.F. despacho 1400-A/2015). Ao nível do indivíduo podem ser descritas desde as sequelas físicas como contusões, fraturas, hematomas; até aos danos psicológicos, que se manifestam pelo medo em voltar a cair, a insegurança, o declínio funcional e depressão, a par do isolamento social com implicações ao nível da autonomia da pessoa e da qualidade de vida (ibid). Em última análise, a própria morte, sendo que 12% das quedas culminam na morte (C.F. Rodrigues et al., 2015). Falamos deste modo num declínio global com impacto direto na qualidade de vida da pessoa e indireto na família, comunidade e sociedade em geral, pelo que é urgente a necessidade de criação de planos de intervenção estruturados de prevenção de quedas e de promoção da saúde e que passa pela identificação precoce dos fatores de risco e medidas de prevenção e/ou erradicação desses mesmos fatores (C.F. Lopes et al., 2010).

O envelhecimento da população só aumentará os custos em saúde se o próprio sistema de saúde não estiver direcionado para a prevenção, pelo que os custos devem ser entendidos e alocados com vista à autonomia e bem-estar. Políticas de saúde direcionadas para o controlo precoce das doenças crónicas, incentivando comportamentos que melhorem a capacidade dos indivíduos e, por outro lado, gerir a doença crónica avançada em indivíduos com perda significativa de capacidade é o caminho a seguir. O enfoque das práticas de saúde será na construção e manutenção da capacidade funcional dos idosos através da maximização da capacidade intrínseca. Criar um ambiente favorável à população idosa combatendo a descriminação etária.
Em suma: a queda é um fenómeno complexo multifatorial constituindo um desafio para o idoso, família e profissional de saúde, mas também um desafio ao nível das políticas de saúde (C.F. Rodrigues et al., 2015; C.F. despacho 1400-A/2015).

Maria de Fátima Pires Ribeiro Imperadeiro

ACES Cávado II Gerês Cabreira

Enfermeira especialista em Enfermagem de Reabilitação

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LOPES, Renata Antunes; DIAS, Rosângela Corrêa (2010). O impacto das quedas na qualidade de vida dos idosos. ConScientiae Saúde, vol. 9(3), pp. 504-509.

RODRIGUES, Rosalina Aparecida Partezani; SILVA, FABRICIO-WEHBE, Aline Francesco da; Suzele Cristina Coelho; DINIZ, Marina Aleixo; FHON, Jack Roberto Silva (2015). Quedas em idosos domiciliados e sua associação com as atividades da vida diária. Revista de Enfermagem UERJ, vol. 23(5), pp. 589-595. DOI: http://dx.doi.org/10.12957/reuerj.2015.10406.

SANTOS, Jancielle Silva; MORAIS, Carolline Silva de, FONTES, Francisco Lucas de Lima; COELHO, Isabella Aglaeth Lima; COSTA,Juliana Kelly Vera; AVELINO, Juliana Torres; SANTOS, Maria da Cruz Silva Pessoa; SANTOS, Thamires Barbosa dos; LIRA, Tatiane Barbosa de; SANTOS, Thayame Lopes dos (2018). PREVENÇÃO DE QUEDAS EM IDOSOS NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA: PREVENIR PARA NÃO CAIR. Brazilian Journal of Surgery and Clinical Research, vol 23 (1), pp.32-38.

SANTOS, Jessica de Castro; ARREGUY-SENA, Cristina; PINTO, Paulo Ferreira; PEREIRA, Elenir de Paiva; ALVES, Marcelo da Silva; LOURES, Fabiano Bolpato (2018). Representação social de pessoas idosas sobre quedas: analise estrutural e a luz de Neuman. Revista Brasileira de Enfermagem, vol. 71 (2), pp. 905-913. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2017-0258.

VIEIRA, Chrystiany Plácido de Brito; ROCHA, Ana Cláudia Saraiva; ALVES, Geycianne Mayara; SALES, LUZ, Jaqueline Carvalho e Silva; ARAUJO, Maria Helena Barros; FIGUEIREDO, Maria do Livramento Fortes (2016). Fatores de risco associados a quedas em idosos. Journal of Nursing, vol. 10 (11), pp. 4028-4035. DOI: 10.5205/reuol.9881-87554-1-EDSM1011201626.
Despacho n.º 1400-A/2015 – Diário da República n.º 28/2015, 1º Suplemento, Série II de 2015-02-10. Plano Nacional para a Segurança dos Doentes.