Síndrome do Intestino Irritável

O que deve saber

A Síndrome do Intestino Irritável (SII) é um distúrbio intestinal comum de causa desconhecida. Os sintomas são vários podendo surgir dor ou desconforto abdominal, bem como alterações dos hábitos intestinais (diarreia ou obstipação ou diarreia alternada com obstipação), não existindo alterações na estrutura do intestino.

Pode afetar todas as idades, mas habitualmente os primeiros sintomas surgem antes dos 45 anos de idade. As mulheres são 2 a 3 vezes mais afetadas que os homens e representam 80% dos casos mais graves. Ainda há mecanismos por esclarecer sobre a sua génese, mas pensa-se que distúrbios físicos, psicológicos e stress estejam envolvidos, e daí resulte uma sobreposição frequente com outros distúrbios funcionais, como é o caso da fibromialgia, dores de cabeça, dores na coluna, sintomas genitais ou urinários.

Quais são os sintomas do SII?

Sintomas que suportam o diagnóstico da Síndrome do Intestino Irritável:

– Dor ou Desconforto abdominal

– Diarreia e/ou Obstipação

– Urgência ou Esforço para defecar

– Sensação de defecação incompleta

– Saída de muco

– Distensão abdominal

– Flatulência

Por regra, a dor ou desconforto abdominal devem estar presentes pelo menos 3 vezes por mês, nos últimos 3 meses, com a presença de mais dois critérios dos seguintes: a dor melhora com a defecação, o seu início está associado a alterações na frequência de defecação ou o seu início está associado a alterações da consistência das fezes (mais duras ou mais aquosas). É frequente a dor aliviar com a saída de gases e poderá agravar-se com a ingestão de algumas refeições, com o stress emocional ou com a menstruação.

A característica mais consistente desta patologia é a alteração dos hábitos intestinais, podendo existir diarreia, obstipação ou uma alternância entre ambas.

Geralmente não se verifica presença de sangue nas fezes, emagrecimento ou febre. A ocorrência destes sintomas deve ser sempre referida ao médico.

Preciso de exames para saber que tenho SII?

De um modo geral, não são precisos exames para se fazer o diagnóstico, a não ser para serem excluídos outros problemas, contudo, um médico é capaz de diagnosticar SII pelos sintomas descritos pelo utente. Portanto, não deverá alarmar-se se lhe for feito o diagnóstico de SII sem efectuar exames complementares. Contudo, análises ao sangue, estudo das fezes e colonoscopia poderão ser ponderados pelo seu médico de família, de modo a excluir outras doenças intestinais, nomeadamente, doença de Crohn, colite ulcerosa, doença celíaca, etc.

Qual é o tratamento do SII?

Não existe cura para a SII, mas os sintomas podem ser facilmente controlados com o tratamento que pode incluir alterações na dieta, e administração de pró-bióticos ou de outros medicamentos dirigidos para sintomas específicos (por exemplo, laxantes se obstipação ou anti-diarreicos se diarreia) e também através de alterações do estilo de vida que levem a uma diminuição dos níveis de ansiedade e de stress.

Relativamente aos hábitos alimentares, deverão ser privilegiados os alimentos pobres em gorduras e ricos em hidratos de carbono como massa, arroz, cereais, frutas e vegetais. Por sua vez, deverão ser evitados alimentos que potenciem os sintomas da SII tais como leite, derivados do leite, café, álcool, adoçantes artificiais e alimentos que contribuam para a formação de gás intestinal como feijão e couves. A introdução de fibra deverá ser feita de acordo com as recomendações do médico de família pois se, por um lado, esta melhora a obstipação, por outro também aumenta a produção de gás.

Os pró-bióticos estão frequentemente indicados na SII. Consistem em microrganismos vivos, geralmente bactérias, semelhantes aos que naturalmente habitam o nosso intestino, e a sua administração visa melhorar a flora intestinal e, deste modo, tende a melhorar muito significativamente os sintomas desta síndrome.

Informe-se com o seu médico sobre as melhores opções medicamentosas, que poderão passar pelo uso de laxantes, anti-diarreicos, anti-espamódicos ou antidepressivos. Excecionalmente, poderão ser necessários antibióticos, caso haja evidência de crescimento bacteriano excessivo no intestino.

Por fim, a abordagem dos quadros de ansiedade, stress excessivo ou depressão, muitas vezes associados ao SII, é também fundamental para o sucesso terapêutico.

Qual o prognóstico da SII?

Na maioria dos casos, a SII persiste por toda a vida mas a intensidade e a frequência dos sintomas tende a diminuir ao longo do tempo. De facto, poderá haver longos períodos em que não há quaisquer sintomas ou estes são apenas ligeiros.

A SII é uma doença benigna e, como tal, não encurta a sua esperança de vida, não provoca cancro colorretal e não leva a quadros graves de obstrução intestinal ou outros.

Conselhos e dicas:

– Poderá ser útil fazer um “calendário de sintomas”, que consiste no registo periódico de sintomas, dia e hora em que ocorrem e fatores que relaciona com o seu aparecimento. Será útil ao seu médico de família para o acompanhar de forma mais adequada, e a si para perceber melhor a sua doença, identificando os fatores que a agravam e, assim, prevenir sintomas.

– A diminuição do stress e prática de exercício físico influenciam positivamente a doença, melhorando ou revertendo os sintomas a ela associados.

– O tabaco pode contribuir para o agravamento de sintomas, portanto, procure evitá-lo.

– A melhoria dos sintomas é um processo que pode levar vários meses. Seja paciente, e reforce os momentos de repouso.

– A prevenção passa pelo bom controlo dietético, adopção de um estilo de vida saudável e evição dos fatores que potenciem as crises.

 

Ana Margarida Marques – Interna de Formação Especifica em MGF

Judite Sousa  – Interna de Formação Específica em MGF

Drª Luísa Terroso – Assistente Graduada Sénior

USF AmareSaúde

Fontes:

– Harrison Principles of Internal Medicine, 19th edition.

– Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, 2013.